Mas que refrigerante é esse, que chega a ser motivo de orgulho para os maranhenses e todo visitante é sempre convidado a provar? Para quem não é do Maranhão, o que mais chama a atenção é a cor. Se não estivesse em uma garrafa de refrigerante, poucos diriam que se trata de uma bebida. O nome também pode soar inconveniente. Mas, no Maranhão, quem gosta de refrigerante não troca um copo de guaraná Jesus nem por dois litros de Coca-Cola bem gelada.
O sabor da bebida é um dos mais peculiares da indústria de refrigerantes. Enquanto a maioria dos refrigerantes menos conhecidos tem o gosto inconfundível e genérico de tubaína, o guaraná Jesus oferece um sabor único.
“O produto é bom, saudável, natural e extremamente saboroso”, afirma Nuñes, nascido em Cuba e naturalizado nos Estados Unidos. “Não é algo que bebo todo dia, mas é um o guaraná é um produto diferente, que não tem similares no mercado e com padrão de qualidade internacional.”
Mesma fórmula há 80 anos e 17 ingredientes
A fórmula do refrigerante, com sua coloração rosa e garrafa retrô, é a mesma criada em 1920 num laboratório de fundo de quintal em São Luís, pelo farmacêutico Norberto Gomes, que acabara de importar uma máquina de gazeificação.
Inicialmente, o objetivo era produzir uma espécie de magnésia fluída, um remédio que estava na moda, mas o negócio não deu certo e ele resolveu fazer uma bebida para os netos, a partir de 17 ingredientes básicos, entre eles ervas e produtos que descobria em suas viagens pela Amazônia. O gostinho de canela adocicada e a cor diferente agradaram a molecada de toda a vizinhança e, com o tempo, Jesus (o guaraná) foi caindo no gosto popular.
“O pessoal do Maranhão é louco por Jesus. Não é exagero dizer que aqui quando se fala em Jesus se pensa primeiro no guaraná do que no Cristo”, afirma o publicitário Fábio Gomes, de 45 anos, autor do novo design do rótulo, da primeira campanha publicitária do produto e neto do criador do Jesus, o farmacêutico Jesus Norberto Gomes.
“Pelo que consta, quando o meu avô criou a fórmula, ainda não existia nenhum refrigerante no Brasil. Nessa época, já existia a Coca-Cola, mas ela ainda não havia chegado nem a Nova York”, afirma Fábio Gomes, que também é produtor de cinema e acabou de filmar no Maranhão “O Dono do Mar”, baseado em obra homônima do ex-presidente e ilustre maranhense, José Sarney. “Aliás, assim como a logomarca Coca-Cola foi feita a partir da assinatura do seu criador, a logomarca do Jesus nasceu da assinatura do meu avô”, completa.
A Coca-Cola foi criada em 1886, em Atlanta, pelo também farmacêutico John Pemberton, mas só em 1942 chegou ao Brasil. No começo do século 20, a elite maranhense já tomava o gingerale, um refrigerante feito à base de gengibre, importado da Inglaterra e vendido nas farmácias.
O neto do criador explica que a coloração rosa provém de corantes naturais de cascas de árvores importados. “Hoje a cor pode parecer estranha, mas naquela época não existia um padrão”, diz.
Gomes explica que o corante natural é muito mais caro e menos resistente à luz do que o sintético. “Ele perde a cor com mais rapidez. Em compensação, ainda que não seja 100% natural, o Jesus tem autorização dos órgãos de saúde de estampar no rótulo a inscrição ‘Produto natural’ e ‘Bom para o consumo’, no lugar ‘apropriado para o consumo’, o que nenhum outro tem. Meu avô se orgulhava disso”, diz. “O engraçado é que tudo que representa não parece natural.”
A família Jesus manteve fábrica própria até o início de 1960. Os filhos que comandavam o negócio do pai farmacêutico partiram para São Paulo e a família decidiu vender a fábrica de refrigerantes para a Antártica, mas não a marca. Naquela ocasião, a família acusou a fábrica de adulterar e boicotar o produto e inicia uma briga judicial. O contrato foi rompido, mas a família ficou sem fábrica para produzir o refrigerante.
Por isso, o Jesus ficou sete anos fora do mercado até que, em 1980, foi vendido para a Companhia Maranhense de Refrigerantes, que já tinha licença para fabricar e distribuir a Coca-Cola no Estado.
“O guaraná Jesus foi vendido bem barato para o produto poder voltar ao mercado”, afirma o neto do criador. “O retorno do Jesus foi viabilizado com o lançamento das garrafas PET, de plástico, que tornam mais fácil e barato o transporte. Até, então, o Jesus só tinha sido comercializado em garrafas pequenas de 290 ml.”
A Companhia Maranhense de Refrigerantes e a Coca-Cola não comentam em detalhe as cláusulas dos seus contratos. Segundo o diretor-geral da companhia, uma das cláusulas proíbe a distribuição de Jesus fora da área que a empresa tem a licença para distribuir os produtos da Coca-Cola.
“Para a Coca-cola permitir que a sua licenciada fabricasse uma bebida concorrente impôs uma série de restrições”, afirma o neto do criador do Jesus. Fora do Maranhão, o Jesus só é distribuído em pouquíssimas cidades do Tocantins, em que a Companhia Maranhense atua.
Gomes conta que seu pai, que chegou a administrar a fábrica de refrigerantes, levava o xarope puro sem gás de Jesus e dava para o filho tomar na mamadeira. “Eu não tinha nem quatro meses, não estava desmamado e já tomava Jesus”, diz. “O mais surpreendente é que descobri que aquilo que meu pai fazia, as mães de hoje ainda fazem. Elas batem o Jesus no liquidificador para sair o gás e depois colocam na geladeira.”
Jesus era ateu
O criador do Jesus, quem diria era ateu e foi excomungado pela Igreja Católica. Jesus Norberto Gomes nasceu no interior do Maranhão e chegou a São Luís com 19 anos. Analfabeto, começou a trabalhar em uma farmácia. Foi praticamente adotado pelo casal proprietário do negócio que não tinha filhos e aprendeu a ler e escrever. Aos 40 anos, transformou-se efetivamente em um farmacêutico e criou o refrigerante que herdou o seu nome.
“Meu pai era uma genialidade, mas era uma personalidade muito controversa. Ateu e tido como comunista, ele foi esconjurado pelo Papa depois que deu uma surra no padre, e alimentava uma lenda que tinha feito pacto com o diabo”, afirma o neto Gomes, filho de Jesus Norberto Gomes Filho, um dos sete filhos do farmacêutico.
Depois de ser exorcizado, Jesus mandou trazer da Alemanha uma série de caras de Fausto (personagem de Goethe que vende a alma ao demônio) e as colocou nas entradas da farmácia, somente para alimentar a lenda.
“Ele era uma pessoa meio neurótica para desespero da minha avó, que era muito carola e passou a vida determinada em salvar a alma do marido.” Jesus morreu em 1963, sem retornar à Igreja.
No currículo do farmacêutico consta também uma prisão durante a presidência de Getúlio Vargas, sob a acusação de ser comunista. O nome do maranhense ilustre é citado, inclusive em “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos.
Segundo o Neto, o avô era mais um nacionalista do que um comunista. “Num papel, ele escreveu: ‘Eu nunca fui comunista. Nunca consegui ser mais do que um pequeno burguês. Mas sempre admirei a luta pela fraternidade entre os homens’.”
Enquanto a distribuição de Jesus continua restrita aos limites do Maranhão, os paulistanos podem matar a curiosidade experimentando o produto no restaurante Raízes do Maranhão (Av. Voluntários da Pátria, 4.861, Santana. De terça a domingo, a partir das 18h). No restaurante, a lata de Jesus é vendida a R$ 2.
Fonte: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2001/12/12320.shtml
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